DAM FUNK É ME´MO BOM!

Junho 4, 2012 in Notícias

Dam Funk é músico, produtor, Dj, cantor. É um dos personagens mais carismáticos da música atual, um visionário que parece habitar um time warp qualquer que lhe permite, nos anos 2000, viver o funk com todas as letras como se fosse 1981. Ainda assim a sua atitude é mais futurista do que muita da música dita nova que ouvimos hoje em dia. Pense-se em Prince como o modelo, mas também em Rick James, Steve Arrington, Roger Troutman. Dam Funk, Damon Riddick, the master of boogie funk como lhe chamam, é tudo isso com um extra de coolness. O seu primeiro disco, Toeachizown, quíntuplo em vinil, duplo em cd, é quase todo instrumental e saiu em 2009 com selo da Stones Throw, uma das mais importantes editoras de hip hop dos últimos 10 anos, hoje também casa de Aloe Blacc ou Breakestra (Mayer Hawthorne também fazia parte da família até há pouco tempo). Toeachizown podia ser apenas um objecto estranho, mas é um disco tremendo que rapidamente confirmou Dam Funk como um músico genuíno nas intenções e forte na personalidade. As suas atuações como Dj só vieram sublinhar o interesse e cimentar o culto, primeiro na zona de Los Angeles, depois no mundo inteiro. Dam Funk passa discos, usa computador, toca o seu sintetizador de ombro (a que pelos vistos não gosta de chamar keytar, embora toda a gente o faça) para improvisar sobre a música, canta, dá informação, dança com o público. Cada set seu é mais do que um set de Dj, é uma festa de partilha, sem barreiras nem espaço para presunção ou racionalismos. Sente-se e dança-se sempre com um sorriso nos lábios, também com os braços no ar. Por ser realmente único e absolutamente contagiante no seu amor pelo funk, quisemos fazer a festa com Dam Funk mas antes conversámos por telefone para deixar que fosse ele a contar (um pouco) da sua história.

Como é que tudo começou?
Começou quando era miúdo, fazia música em cassetes, no meu quarto, quando andava no liceu. Depois conheci algumas pessoas, entre elas um produtor, Leon Sylvers III, que produzia grupos da S.O.L.A.R. Records como Shalamar, The Whispers, ele gostou da forma como eu tocava teclados e ensinou-me muita coisa. Comecei depois a trabalhar como músico de sessão de alguns rappers da west coast mas ao mesmo tempo percebi que queria fazer mais funk, por isso comecei a fazê-lo em casa, só para mim, até que um dia conheci o Peanut Butter Wolf (Stones Throw), ele ouviu algumas coisas minhas, falámos sobre música e ele pediu-me uma remistura para Burn Rubber de Barron Zen e o resto é o que se sabe. Estou na Stones Throw desde 2007 e estou quase a editar o meu segundo álbum oficial, este outono.
Um disco que era suposto sair nesta Primavera, certo?
Foi adiado porque a minha vida deu umas voltas (risos). Às vezes a vida toma conta de nós. Mas isso dá-me mais tempo para afinar o disco. Acho que é o tipo de disco com que as pessoas vão poder relacionar-se do princípio ao fim

Li algures que começou como baterista
Sim, comecei

È verdade que se converteu aos sintetizadores e teclados por causa de Prince?
A bateria foi o primeiro instrumento que aprendi mas o Prince foi sem dúvida importante para eu me interessar pelas teclas porque gostei do facto de tudo poder ser feito por uma única pessoa. Isto foi muito antes de existirem programas como Abbleton o Fruity Loops, ou qualquer um desses softwares que hoje nos permitem fazer tudo sozinhos. É dai que eu venho, de tocar ao vivo os instrumentos e ir acrescentando pistas, não da forma atual de fazer musica em que tudo é feito em computador. Os meus modelos são músicos que tocam tudo, como Todd Rundgren e pessoas assim

E quem mais admira?
O Prince é sem dúvida um dos artistas de eleição, gosto muito de ouvir a sua música e respeito muito o seu trabalho, mas também posso falar de Junie Morrison, que era dos Ohio Players e fez coisas incríveis que não são conhecidas. Muita gente fala de James Brown e George Clinton, mas penso que o Junie Morrison é muito subvalorizado, ele é um dos maiores artistas de funk que alguma vez existiu. Têm que o ouvir. Também gosto muito do Steve Arrington dos Slave, tanto a voz como a forma como toca bateria estão cheias de espirito, de soul. Gosto muito de Paddy McAloon dos Prefab Sprout e já falei do Todd Rundgren, mas há grupos como Change, One Way, Barry White ou os Isley Brothers, especialmente as coisas do início dos anos 80, que de facto influenciaram muito o meu som

A sua música está muito enraizada no passado, sobretudo no booggie e funk de final dos anos 70, início dos 80. Pensa na sua música como sendo retro? Pergunto isto porque hoje parece haver de facto um grande interesse em reproduzir o passado, a chamada Retromania
Agradeço muito essa pergunta e o que vou dizer, digo-o com toda a humildade. Respeito toda a cena retro que está a acontecer mas considero a minha música uma continuação do que era o funk antes do hip hop, do house e toda a música que gostamos de ouvir dos últimos 20 anos, terem eclipsado o que estava a acontecer no funk nessa altura. Houve muitas mudanças na indústria, muitos músicos foram fazer outras coisas, ficaram mais velhos e perdeu-se o seu rasto mas eu gosto de pensar que a minha música continua nesse espirito original mostrando sempre o meu respeito por eles e nunca copiando o que esses grandes músicos fizeram no passado. Acho que essa é grande diferença entre mim e a cena retro. Muitos artistas de hoje tentam emular os músicos originais usando o mesmo tipo de drum machines, instrumentos, e tudo isso, sem mostrarem verdadeiramente alma naquilo que fazem. Funciona mais como num jogo. Gosto de pensar que a minha abordagem à música não é de jogo mas de verdade. Não estou no funk de passagem, amanhã não vou estar a fazer dubstep. Estou a tentar ser honesto e verdadeiro e a pegar no mesmo sítio onde os músicos originais deixaram de fazer funk.

Mas o que é o funk para si?
O Funk é um modo de vida. Não são só canções para abanar o traseiro, ou musica para publicidade. Funk é uma forma de vida, a maneira como nos relacionamos uns com os outros, reflecte a nossa vida e tudo à nossa volta, é sobre a felicidade e a tristeza do dia-a-dia e poder traduzir isso numa melodia. O Funk não é só um party groove, é muito mais

Até hoje não fez muitas remisturas, mas assinou algumas para bandas com bastante indie cred como os Animal Collective, Ariel Pink ou Peaking Lights, o que pode parecer estranho tendo em conta a sua devoção ao funk…
Honestamente, e mais uma vez digo isto com toda a humildade, acredito que os real cats, aqueles que de facto querem saber de arte, de musica, não interessa qual o género a que pertencem, o rotulo da musica que fazem ou divulgam, os verdadeiros sabem reconhecer os verdadeiros, como dizemos nos Estados Unidos, game recognize game. Não é que seja um jogo, mas o reconhecimento entre os pares é imediato. Eu gosto da música de Ariel Pink e Animal Collective e aprecio o facto de eles gostarem do que faço ao ponto de me pedirem remisturas. Estou ansioso para fazer a digressão americana com Ariel Pink e James Ferraro ainda este ano. Gosto de estar com artistas assim, que não têm medo de mostrar ao público coisas diferentes, estilos diferentes de que se pode gostar sem bullshit nenhuma

A sua atitude enquanto Dj é muito diferente do normal: apresenta os discos, improvisa sobre eles, fala com o público e vai para o meio dele. Porque adotou esta postura? Acha que havia demasiada distância no Djing tradicional?
Para ser honesto aconteceu tudo naturalmente. Acredito que devo tratar as pessoas como gosto de ser tratado e se vou a um clube e o Dj está a passar algo único, que faz diferença, eu quero saber o que está a tocar! Hoje em dia há apps de telemóvel que identificam as músicas, mas mesmo assim há coisas tão raras que nem esses programas as conseguem identificar. Mas mesmo antes dessa tecnologia existir eu sempre pensei que as pessoas gostariam de saber que discos toco e saber mais coisas sobre os artistas portanto, em vez de fazer como alguns Djs que gostam de tocar coisas muito exclusivas e ficam todos contentes porque ninguém sabe do que se trata, eu penso sempre que, na maior parte dos casos, não foram eles que fizeram a musica e o artista que a fez merece ter crédito pelo seu trabalho. Percebo que os Djs também tenham que manter secreta alguma da música que tocam porque há muitos tubarões dispostos a roubar os discos especiais aos outros mas acho que mais importante do que essas batalhas de egos é dar o crédito aos artistas, a quem fez a música… além disso acho que é mais divertido ouvir um Dj apresentar os discos. Não se pode falar muito, porque senão corta a onda e ainda alguém tropeça na pista de dança, mas é sempre mais interessante ouvir alguma informação sobre a música que toca em vez de estar a olhar a noite inteira para um tipo que não levanta os olhos do laptop.

DAM FUNK + CAIS SODRÉ FUNK CONNECTION + DJ’S OXIGENIO

Sábado 9 Junho, Absolut Club, Belém, 22h00

1 bilhete=2 pessoas + 1 bebida

bilhetes à venda na Ticketline e Flur