O cantor e compositor norte-americano morreu a 14 de outubro de 2025, aos 51 anos, deixando uma discografia curta, mas decisiva para a evolução do R&B contemporâneo.

Faz hoje um ano que morreu D’Angelo, nome incontornável do neo-soul e uma das vozes mais influentes do R&B das últimas três décadas. O músico morreu aos 51 anos, na sequência de um cancro do pâncreas, deixando para trás três álbuns de estúdio que ajudaram a redefinir as fronteiras entre soul, funk, jazz e hip-hop. 

Editado em 1995, Brown Sugar apresentou ao mundo uma abordagem renovada à tradição soul norte-americana. Entre instrumentação orgânica, grooves descontraídos e influências do hip-hop, o álbum estabeleceu as bases de uma linguagem que viria a marcar uma geração de músicos. Temas como “Brown Sugar” e “Lady” deram visibilidade a um artista que recuperava a herança de Marvin Gaye, Prince e Curtis Mayfield sem abdicar de uma identidade própria.

Cinco anos depois, Voodoo consolidou essa visão. Com uma produção marcada por ritmos irregulares, baixos profundos e uma abordagem deliberadamente humana à gravação, o segundo álbum tornou-se uma das obras de referência do neo-soul. Desenvolvido em colaboração com músicos associados ao coletivo Soulquarians, entre eles Questlove e Pino Palladino, o disco afastava-se das produções mais polidas do R&B comercial e privilegiava a interação entre os instrumentos, a improvisação e a textura sonora.

Foi também neste período que D’Angelo alcançou uma dimensão de popularidade mais ampla .

Depois voltou  em 2014, com Black Messiah, editado sob o nome D’Angelo and The Vanguard. Mais denso e politicamente explícito, o álbum refletia as tensões raciais e sociais nos Estados Unidos, aproximando a música de uma tradição de intervenção que atravessa a história da soul. O disco foi amplamente aclamado e conquistou o Grammy de Melhor Álbum de R&B, enquanto “Really Love” venceu na categoria de Melhor Canção de R&B.

Ao longo da carreira, D’Angelo recebeu quatro prémios Grammy e colaborou com artistas como Erykah Badu e Lauryn Hill. A sua influência estendeu-se muito para além dos discos que publicou, ajudando a abrir caminho a diferentes gerações de músicos interessados numa abordagem mais orgânica, experimental e pessoal ao R&B.

Um ano depois, a obra de D’Angelo permanece como um ponto de referência para quem procura no soul uma linguagem capaz de cruzar tradição e experimentação.

Mariana Cruz