A vida noturna de Berlim atravessa um período de transformação e incerteza. Conhecida mundialmente como uma das capitais do clubbing e da música eletrónica, a cidade alemã enfrenta agora uma quebra no turismo pela primeira vez em mais de uma década, excluindo os anos da pandemia, ao mesmo tempo que vários dos seus clubes históricos encerram portas ou enfrentam dificuldades financeiras.

Durante anos, Berlim construiu parte da sua identidade em torno do turismo associado aos clubes. No início dos anos 2000, o jornalista cultural Tobias Rapp descreveu o fenómeno da chamada “easyJet set”: jovens europeus que viajavam em companhias low cost para passar fins de semana inteiros entre pistas de dança, regressando a casa poucos dias depois. Mais do que visitar museus ou monumentos, vinham à procura da experiência clubbing que tornou a cidade famosa.

Na altura, os voos baratos e o custo de vida acessível permitiam que milhares de turistas enchessem os clubes da cidade todas as semanas. Em muitos espaços, a presença internacional era tão dominante que, segundo Rapp, “quase ninguém falava alemão” nas filas de entrada.

Ainda hoje, a noite continua a ser um dos principais motivos que leva turistas a visitar Berlim. Dados da Visit Berlin indicam que cerca de 22% dos visitantes internacionais e 17% dos turistas alemães apontam os clubes como razão para a viagem. No entanto, o perfil desses visitantes está a mudar.

Ao mesmo tempo, as condições que sustentaram a era da “easyJet set” estão a desaparecer. Os voos low cost tornaram-se mais caros e menos frequentes, o custo de vida subiu significativamente e manter um clube em funcionamento tornou-se cada vez mais difícil.

Nos últimos dois anos, vários espaços emblemáticos encerraram ou enfrentaram ameaças de fecho. O histórico Watergate fechou no final de 2024 após mais de duas décadas de atividade, citando pressão financeira e aumento dos custos operacionais. O mesmo aconteceu com o Mensch Meier.Outros espaços, como o Renate, continuam a negociar rendas mais elevadas e contratos de arrendamento em fim de prazo.

Esta transformação reflete uma mudança mais ampla na cidade. O abundante espaço industrial e urbano que surgiu após a reunificação alemã, essencial para o florescimento da cultura clubbing, foi progressivamente substituído por projetos imobiliários e pela valorização do mercado. Hoje, existem menos espaços disponíveis e os custos com energia, rendas e equipas continuam a aumentar.

Além disso, os hábitos do público também estão a mudar. Estudos do setor indicam que quase metade dos mais de 150 espaços noturnos de Berlim ponderaram encerrar devido à quebra de público e ao aumento das despesas. As gerações mais jovens saem menos vezes, permanecem menos horas nos clubes e demonstram maior interesse por festivais e eventos diurnos do que pelas longas noites que fizeram a reputação da cidade.

Outro fator importante é a redução das ligações aéreas económicas. O aeroporto de Berlim ainda não possui a conectividade de outros grandes hubs europeus e várias companhias low cost reduziram rotas devido ao aumento de taxas e impostos. Menos voos baratos significa menos escapadelas espontâneas de fim de semana, precisamente o tipo de turismo que durante anos alimentou a economia da noite berlinense.

Apesar das dificuldades, Berlim continua a ser uma das cidades mais relevantes do mundo no universo da música eletrónica e da cultura clubbing. A diversidade de espaços, géneros musicais e programação mantém-se praticamente sem paralelo na Europa.

Ainda assim, dentro da própria cena cresce a preocupação com o futuro. Para muitos profissionais do setor, a cultura noturna continua a ser uma peça central da identidade da cidade e um motor económico importante para áreas como hotelaria, transportes e turismo.

A questão agora é perceber se a cidade conseguirá preservar as condições que transformaram Berlim num símbolo global da vida noturna, ou se o desaparecimento gradual da “easyJet set” marcará também o início de uma nova era para os clubes berlinenses.

Mariana Cruz